quinta-feira, 15 de Maio de 2014

A Chuva


A chuva não se importa de cair,
pesada,
ou sem se sentir,
pelos caminhos do mundo.
Vem beijar o chão que os homens pisam.
Vem desfazer-se e correr,
com pressa de chegar,
a rios de ninguém.
Deixa-se morrer, quase sempre,
na margem.
Entranha-se pela terra,
numa ancoragem
efémera.
Dela nada tira, a ela tudo dá.
Vem para lavar a cara ao mundo,
e alimenta-lhe as raízes,
onde o olho humano não chega.
Para desaparecer a seguir.
E quando nasce o sol, ninguém diz
que por ali se viu vir,
águas do céu,
lágrimas de Deus.
Tal homem que se tomba morto
em guerra,
só existe para acrescentar mais pedaços à terra:
A chuva.

Rita Oliveira

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Auto-Retrato


Eu sou o ponto onde começa o mundo.
E o fim de tudo.
Eu sou algo que alguém semeou em mim,
que volta, revolta,
nas reviravoltas
da minha vida.
Vivo de um alento,
que dança, balança
em mil valsas de uma noite
(à meia-noite ou ao fim do dia)
comigo.
Ele vive, ele cresce,
ele nasce e renasce em mim:
Nos percursos circulares,
inconstantes e instáveis,
não obstante infinitos
e para a maioria insondáveis,
da minha pele despida...

e aqui, agora, só com um fino lençol a cobri-la,
eu não sou, nem quero ser, ordem
num mundo ordinário e sei
que violo as regras do ser
que alguém impôs em algum momento
da história da humanidade.
Esqueço-me de ter modos também.
Quero antecipar o que vem
e viver mais do que me é permitido.
Já que se o Cosmos, Jeová ou Natura
me fizeram nascer para o Mundo,
dele eu tenho direito a tudo!
E sempre, sempre mulher...
Sempre descomprometida.

Aqui estou eu, nas voltas
e reviravoltas da vida,

Trago uma saia que roda
e uma dança de meia-noite
num fim de dia.

 Muito prazer!


Rita Oliveira

domingo, 6 de Abril de 2014

Entre páginas



«Ele quer que o caixão seja branco, como um caixão de virgem. Mas ninguém o compreende, nem Jubiabá que sabe tanta coisa. O Gordo só concorda porque é muito bom, mas no fundo está espantado porque nunca viu caixão de prostituta ser branco. Apenas Amélia parece compreender:
– Você gostava muito dela, não era? Eu fiz intriga. Andava com ciúmes dos patrões gostarem tanto de você. Há vinte anos que eu estava com eles. Eu criei a menina. Ela merecia um destino melhor... Tão boazinha.
Então Antônio Balduíno estende as mãos e explica com aquela voz pesada que tem de quando em vez:
–Ela era virgem, gente... Eu juro que era... Ninguém teve ela... Ela não foi de ninguém...Vivia disso mas não se dava... Só eu é que tive ela... Só eu, gente... Quando eu andava com uma mulher tava com a cabeça nela... Quero um caixão branco para ela.
Sim, ninguém a possuiu porque todos a compraram. Só o negro Antônio Balduíno, que nunca dormiu com ela, a possuiu e de todas as formas, no corpo virgem da dos Reis, nas ancas que dançavam de Rosenda Rosedá. Só ele a possuiu no corpo de todas as mulheres que dormiram com ele. Na maravilhosa ventura de amor do negro Antônio Balduíno e da branca Lindinalva esta foi branca, preta e mulata, foi também aquela chinesinha do Beco de Maria Paz, foi gorda e magra, teve uma voz masculina certa noite no cais, mentia como a preta Joana. Mas ela não pode ir vestida de virgem, Antônio Balduíno. Amélia está explicando que ela amou Gustavo, que a possuiu de verdade, sem a comprar. Mas Antônio Balduíno não quer escutar e pensa que aquilo é outra intriga de Amélia para o afastar de Lindinalva.»

1935, Jorge Amado. Jubiabá



Cada livro pousado nas minhas prateleiras, cada livro que me tenha passado pelas mãos, emprestado, e que agora nem sei porque paragens o encontrar… cada linha que li e tantas outras que ainda estão por ler, são cantinhos que passam a existir dentro de mim. São cantinhos onde regresso, onde remexo, onde sinto e volto a sentir novos mundos, novas sensações… lidas, relidas, mas sempre diferentes. Sempre inspiradoras.
Estou grata por ter estas oportunidades. Por existirem, por saber que existem peças como estas que, não vêm só trazer ou dar a conhecer mundos ao mundo, mas que o renovam: uma obra de arte, livro, pintura ou música, há-de estar sempre inacabada enquanto houver leitores e ouvintes que a interpretem e que a prolonguem com os seus próprios sentidos, cada um à sua maneira. Qualquer escritor que escreva um livro e que o publique num momento que podemos identificar e delimitar no tempo e no espaço, não está a fechar o mundo sobre si próprio. Não está a aprisionar pensamentos, sensações e descobertas entre uma capa e uma contracapa. Está, pelo contrário, a assumir a responsabilidade de incumbir, a quem se atrever, uma importante tarefa: a de prolongar aquilo que foi por ele prolongado também, a de dar forma a todas as vidas, vividas ou sonhadas, que podem habitar dentro de um Homem. Fazem isto para que possamos todos conhecermo-nos um pouco melhor, a nós e à terra que pisamos. E enquanto houver esta incompletude, esta solidariedade humana e sentido de missão, haverá sempre arte para apreciar.
Este livro ensinou-me que é possível esconder o lirismo nas entrelinhas da prosa. Uma prosa que narra uma realidade que foi tão minha como de quem a escreveu e que vivi intensamente, tanto quanto pude, a partir do papel.

Rita Oliveira

sexta-feira, 21 de Março de 2014

Adeus, Poesia!
Vai-te no vento,
para onde te oiçam,
que de mim não tens mais do que pouco.
Vai-te para outro.
Não te prendas a mim.
Aqui não tens mais que dores,
que te gastam, envelhecem
e que de ti não fazem história.
Só me serves para o ego da memória.
Vai, Poesia! Vai-te embora!
Não vês que daqui
pouco mais levas que o meu proveito?
Nada mais que um egoísmo perverso,
só para ti mais vago
que evidente?
Mas escreve-me, quando chegares onde fores.
Não me deixes sem novas!
Que não há paixão mais potente,
que a que habita no amor ardente
da ausência.
E, quem sabe um dia,
por não te ter
eu volte a ti.

Rita Oliveira

terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Diario de un extranjero





Aquí en mi nación
llevase el horizonte junto al pecho.
Respirase corazón,
desbravase los bosques
hasta que se vean 
las raíces de la tierra,
secando al sol.
En mi país, en mi país de lejos,
los hombres escupen,
en las cicatrices de los hombres.
Y aquí no hay tempestades, aquí no llueve.
Solo es permitido a las nubes
una suave llovizna,
que ni llega para lavarse la cara.
¡Todo aquí grita, pero no lo digas a nadie, nadie lo sabe!
El cielo grita, la tierra grita,
los árboles, las casas cerradas, las paredes,
los caminos, las piedras,
los hombres del pasado, los hombres del futuro…
las flores podridas en las escopetas… ¡Gritan!
y los que se mueren, se mueren
porque no pueden gritar más.
Y los que se van, se van con la voz ronca.
Pero no lo digas a nadie, nadie lo sabe,
nadie lo puede conocer…
Mi país de lejos, un país que se grita
sin saber.


Rita Oliveira

sexta-feira, 22 de Março de 2013


Se um dia eu te disser, que fiz tuas as águas turvas,

Do rio que corre por entre os dedos da saudade,
Não creias que não trago no rosto,
pousadas as vertigens da lembrança,
Coisa vaga ou esboço de não sei quê,
O algo que cessa sem cessar…
Acredita antes que fui alguém
a querer os nadas que os demais evitam.
Que fui eu quem, entre os nadas, se fez alguém.
E recolhe a alma do veneno,
daqueles a quem o tudo não basta,
E que não entendem, como é que para ser feliz,
Eu precisei de tão pouco!

Rita Oliveira
11.02.2013