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AEMINIUM

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Na cidade que se ergue junto ao rio,
tumultos citadinos emergem ruidosos ao romper da madrugada.
E numa rua apertada de tempo
todos caminhamos em direções desiguais.
Fumos de formas disfóricas
dissolvem-se no céu azul novo.
E vozes meigas, histéricas, chorosas, gargalhosas, indiferentes, sonolentas,   
em conversas paralelas aos meus pensamentos,
misturam-se com o ruído dos carros raivosos
e o cheiro do pão quente que sai das padarias,
numa tímida ode citadina.

Amagogía

Há bolo de mel nas mãos da rapariga
ali, parada, à beira de todas as estradas do mundo.
Há seiva correndo,
na árvore que plantámos,
no quintal do nosso tempo.
Nunca soubemos que árvore era aquela.
Nunca soubemos que nome lhe dar.
E estão histórias de cordel,
a secar,
naquela casa,
onde as paredes são de uma cor
que ainda não foi inventada por ninguém.
E só nós é que podemos ver essa cor,
e essas paredes e essas histórias e essa casa e essa rapariga.
Porque só nós é que crescemos dentro delas.
E nos tornámos nelas.
Porque nesta vida, como toda a gente diz,
há que tornar-se sempre em alguma coisa,
de preferência, que nos distinga dos outros.
(ainda que, no fim,
tornemos todos ao mesmo sítio).
"Dalila aprendeu a ser assim, a agir, a ser e a estar de modo a que não esperassem nada de si. Como o aprendera e porquê, a isso ela não sabia responder. Mas por sorte, sei mais sobre Dalila do que ela própria e, por isso, posso explicar-vos. Dalila, órfã de mãe, frequentemente esquecida no balcão dos botequins, vivia com o pai, que só ocasionalmente conseguia ser pai, apesar de amar a filha. Mas que coisa estranha é essa, o amor... Se o amor fosse um homem teria, seguramente, mil caras diferentes e confudir-se-ia facilmente no meio de uma multidão onde deambulam outros homens. Onde vagueiam, errantes, o medo, o desespero, a frustração, a raiva e outros tantos parentes de gala. E ainda bem que assim é, caso contrário, deixaríamos de reconhecer em nós mesmos o que nos torna humanos. Um dia, Manuel, que amava Dalila, levantou-lhe a mão. As lágrimas que a menina chorou arderam-lhe na face, no sítio onde a mão injusta lhe caíra. E foram lágrimas dor e de vergonha, lágrimas de quem nã…

Troca-me isso por imagens

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Diz que a culpa não é minha!
Diz que não é culpa minha.
Não é minha a culpa.
“A culpa não é tua!”
“Não é culpa minha.”
Fui eu que a fiz em catadupa,
é minha, a culpa,
e afoguei-me nela.
Numa catadupa,
num ciclone
de culpa vivi
porque
em mim
deixei-a
viver
eu.

Artes Plásticas

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É de melancolia 
Que é feita a arte?
Também.
E de saudosismo
de dias mais felizes
e noites quentes.
De dias que não se pareçam com dias,
e de histórias que não se pareçam com a gente.
Por isso é que hoje eu acordei
e agarrei o céu,
para o meter em azulejos contentes.
Desenhei-o com a ponta de um dedo,
e pintei-o de cores diferentes.

Rita Fé
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A minha paz é grande e dourada,
estende-se sob a areia da praia
e dela extravasa-se um fulgor que me aquece o peito 
em dias de chuva triste.
Os dias de chuva triste lavam-me o rosto 
da poeira das quedas, das cicatrizes do afogo.
Do meu rosto, os meus lábios sorriem para mim.
E por os meus lábios sorrirem para mim,
os meus olhos acedem-se como duas lâmpadas
que iluminam o caminho a dois amantes discretos.
E o caminho dos dois amantes discretos,
Não é mais do que as linhas da minha pele,
que se enlaçam, entrelaçam e se entrançam.
Na minha pele nascem pequenas flores de primavera.
 E quando nela não cabe a alegria de eu ser tanto,
eu danço.

Rita Fé

Funambulismo

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Eu quero andar na bamba, 
E sentir a corda a vincar-me os pés.
Nela caminhar, pausadamente,
pousando no ar os braços abertos
em gestos suaves e doces.
Arquear o pé delicadamente, as unhas pintadas de branco pérola,
tal qual uma bailarina,
mas sem fazer um grand jeté.
Ao fundo há uma música, só para criar expetativa,
apenas um piano choroso, alegrando-se a cada acrobacia,
para condizer com a seda rosa que visto.
O coração bate-me do peito até à garganta,
Porém, tudo se equilibra numa gloriosa harmonia.
Mas alguém do público começa a chorar uma chuva miudinha,
e, ao lado, outro sopra uma aragem impaciente,
tudo se me cola ao corpo lentamente.
Caio na erva molhada,
e em cima de mim o olhar de todos.
Todas as dores do mundo correm,
para me vir esmagar contra o solo.
Cravo os dedos na terra,
chego a pensar em não mais abrir os olhos
e dissolver-me nela.
Mas não!
Que se animem todas as forças conspiratórias
que atuam em mim!
Que é a vida se não cair e levantar?
Pois bem, ponham a corda mai…