segunda-feira, 20 de abril de 2015

Fragmentidade


O
s pés, dizem que podia ser de bailarina,
se dançasse. Mas não dança,
se bem que o faz, 
sem ninguém ver.
Pele branca que doura ao sol,
só às vezes.
E nela há mãos pequenas só para o que é preciso.
Na face, lábios redondos e carnudos.
Mas não os queria em criança.
Mas não teve outro remédio senão tê-los.
Nariz imperfeito e redondinho,
porém levantado demais,
só às vezes.
Pestanas longas, olhos grandes
e vigilantes
e míopes.
Da cabeça saem longos cabelos negros,
que dão voltas e revoltas nas pontas espigadas da vida,
e sai tristeza e alegria,
impaciência,
ânsia, mania
e coisas que não existem no Mundo,
como este poema.
De tudo, tenta nunca esperar nada,
mas, como bom bicho de natureza desconfiada, não consegue.
É teimosa e complica:
se lhe disserem onde está o céu,
ela não acredita, 
até o ver por cima da testa (ou então não).
Para uns é feia, para outros é bonita.
Às vezes sabe ser doce,
mas também me irrita, especialmente
por querer sempre ir para aquele lugar
que não sabe onde é, nem onde fica e deprime-se
por a vida nunca lho dar.
Às vezes vejo-a ao espelho e não a reconheço,
mas sei sempre que é em mim que habita.
Costumam chamar-lhe Rita, 
mas a verdade é que sou só eu.

sábado, 21 de março de 2015



Às vezes, eu opto pelo caminho mais longo,
quando vou para casa.
É mais bonita a vista do caminho mais longo.
O rio estende-se aos meus pés,
desde a alta da cidade,
e tem pequenas pérolas amarelas,
que brilham ao sol.
E as gaivotas guincham, voando para elas,
como se soubessem de alguma coisa que eu não sei.
Quando estou sozinha, eu escolho o caminho mais longo
para ir para casa.
Faço-o para sentir os pés na terra,
que é mais permanente do que eu
que é como quem diz: que não se finda comigo,
mas vou eu findar-me nela...
Eu gosto de ir para casa pelo caminho mais longo.
E não me importo se demoro mais tempo a chegar
ou se vou atrasada:
só quando vou pelo caminho mais longo é que tudo faz sentido
e as ordens do mundo entram em sintonia.
E eu faço esse caminho para me lembrar porque vale a pena viver.
E ter nascido.

Rita Fé


quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Chuva


A chuva não se importa de cair,
pesada,
ou sem se sentir,
pelos caminhos do mundo.
Vem beijar o chão que os homens pisam.
Vem desfazer-se e correr,
com pressa de chegar,
a rios de ninguém.
Deixa-se morrer, quase sempre,
na margem.
Entranha-se pela terra,
numa ancoragem
efémera.
Dela nada tira, a ela tudo dá.
Vem para lavar a cara ao mundo,
e alimenta-lhe as raízes,
onde o olho humano não chega.
Para desaparecer a seguir.
E quando nasce o sol, ninguém diz
que por ali se viu vir,
águas do céu,
lágrimas de Deus.
Tal homem que se tomba morto
em guerra,
só existe para acrescentar mais pedaços à terra:
A chuva.

Rita Oliveira

sexta-feira, 21 de março de 2014

Adeus, Poesia!
Vai-te no vento,
para onde te oiçam,
que de mim não tens mais do que pouco.
Vai-te para outro.
Não te prendas a mim.
Aqui não tens mais que dores,
que te gastam, envelhecem
e que de ti não fazem história.
Só me serves para o ego da memória.
Vai, Poesia! Vai-te embora!
Não vês que daqui
pouco mais levas que o meu proveito?
Nada mais que um egoísmo perverso,
só para ti mais vago
que evidente?
Mas escreve-me, quando chegares onde fores.
Não me deixes sem novas!
Que não há paixão mais potente,
que a que habita no amor ardente
da ausência.
E, quem sabe um dia,
por não te ter
eu volte a ti.

Rita Oliveira

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Diario de un extranjero





Aquí en mi nación
llevase el horizonte junto al pecho.
Respirase corazón,
desbravase los bosques
hasta que se vean 
las raíces de la tierra,
secando al sol.
En mi país, en mi país de lejos,
los hombres escupen,
en las cicatrices de los hombres.
Y aquí no hay tempestades, aquí no llueve.
Solo es permitido a las nubes
una suave llovizna,
que ni llega para lavarse la cara.
¡Todo aquí grita, pero no lo digas a nadie, nadie lo sabe!
El cielo grita, la tierra grita,
los árboles, las casas cerradas, las paredes,
los caminos, las piedras,
los hombres del pasado, los hombres del futuro…
las flores podridas en las escopetas… ¡Gritan!
y los que se mueren, se mueren
porque no pueden gritar más.
Y los que se van, se van con la voz ronca.
Pero no lo digas a nadie, nadie lo sabe,
nadie lo puede conocer…
Mi país de lejos, un país que se grita
sin saber.


Rita Oliveira

sexta-feira, 22 de março de 2013


Se um dia eu te disser, que fiz tuas as águas turvas,

Do rio que corre por entre os dedos da saudade,
Não creias que não trago no rosto,
pousadas as vertigens da lembrança,
Coisa vaga ou esboço de não sei quê,
O algo que cessa sem cessar…
Acredita antes que fui alguém
a querer os nadas que os demais evitam.
Que fui eu quem, entre os nadas, se fez alguém.
E recolhe a alma do veneno,
daqueles a quem o tudo não basta,
E que não entendem, como é que para ser feliz,
Eu precisei de tão pouco!

Rita Oliveira
11.02.2013